para repensar a questão urbana

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 1 Para (re)pensar a questão urbana Prof. Dr. Mario Leal Lahorgue Departamento de Geografia Universidade Federal do Rio Grande do Sul “A cidade é o ponto alto da realização humana, objetivando o mais sofisticado conhecimento numa paisagem física de extraordinária complexidade, poder e esplendor ao mesmo tempo que traz consigo forças sociais capazes das mais extraordinárias inovações políticas e sócio-técnicas. Mas é também o lugar da miserável falha humana, o pára-raios dos mais profundos descontentamentos humanos e a arena de conflitos sociais e políticos. É um lugar de mistério, local do inesperado, pleno de agitações e fermentos, de múltiplas liberdades, oportunidades e alienações; de paixões e repressões; de cosmopolitismo e extremo paroquialismo; de violência, inovação e reação. A cidade capitalista é a arena da mais intensa desordem política e social ao mesmo tempo que é uma testemunha monumental das forças que movem e se movem dentro da dialética do desenvolvimento desigual capitalista.” David Harvey –  The Urbanization of Consciousness O fascínio, espanto e algumas vezes horror que a cidade desperta em muitas pessoas não diminuiu com o passar do tempo, mesmo que milhares de páginas já tenham sido escritas nos últimos 165 anos para tentar decifrar e explicar a questão urbana . Ainda que as cidades e seus problemas, encontros e desencontros sejam parte da história da humanidade, a questão urbana moderna sem dúvida surgiu  junto com o desenv olvimento do capitalismo, qua ndo a aglomeração tanto de capital constante quanto variável em determinados sítios fazem as cidades crescerem em tamanho e complexidade como há muito tempo não acontecia na história 1 . Este início de reflexão remete então à uma questão: o que mudou e o que permaneceu basicament e igual nas cidades capitalistas nos últimos 165 anos? Discussões clássicas e mais antigas sobre a urbanização capitalista ainda são úteis para s e analisar a cidade contemporânea, espec ialmente a brasileira? 1 Cidades grandes em tamanho e complexidade não são exclusividade da modernidade n em do capitalismo: vide por exemplo as descrições de Lewis Mumford (2008) sobre a Roma antiga; uma discussão sobre “revoluções  urbanas” anteriores ao capitalismo também pode ser encontrada em Edward Soja (2008).

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Texto fundamental para estudo das questões urbanas, orientando sobre uma metodologia.

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    Para (re)pensar a questo urbana

    Prof. Dr. Mario Leal Lahorgue Departamento de Geografia

    Universidade Federal do Rio Grande do Sul

    A cidade o ponto alto da realizao humana, objetivando o mais sofisticado conhecimento numa paisagem fsica de extraordinria complexidade, poder e esplendor ao mesmo tempo que traz consigo foras sociais capazes das mais extraordinrias

    inovaes polticas e scio-tcnicas. Mas tambm o lugar da miservel falha humana, o pra-raios dos mais profundos

    descontentamentos humanos e a arena de conflitos sociais e polticos. um lugar de mistrio, local do inesperado, pleno de agitaes e fermentos, de mltiplas liberdades, oportunidades e

    alienaes; de paixes e represses; de cosmopolitismo e extremo paroquialismo; de violncia, inovao e reao. A cidade capitalista a arena da mais intensa desordem poltica e social ao

    mesmo tempo que uma testemunha monumental das foras que movem e se movem dentro da dialtica do desenvolvimento

    desigual capitalista. David Harvey The Urbanization of Consciousness

    O fascnio, espanto e algumas vezes horror que a cidade desperta em muitas pessoas no diminuiu com o passar do tempo, mesmo que milhares de

    pginas j tenham sido escritas nos ltimos 165 anos para tentar decifrar e explicar a questo urbana. Ainda que as cidades e seus problemas, encontros e desencontros sejam

    parte da histria da humanidade, a questo urbana moderna sem dvida surgiu junto com o desenvolvimento do capitalismo, quando a aglomerao tanto de

    capital constante quanto varivel em determinados stios fazem as cidades crescerem em tamanho e complexidade como h muito tempo no acontecia na histria1.

    Este incio de reflexo remete ento uma questo: o que mudou e o que permaneceu basicamente igual nas cidades capitalistas nos ltimos 165 anos?

    Discusses clssicas e mais antigas sobre a urbanizao capitalista ainda so teis para se analisar a cidade contempornea, especialmente a brasileira?

    1 Cidades grandes em tamanho e complexidade no so exclusividade da modernidade nem do

    capitalismo: vide por exemplo as descries de Lewis Mumford (2008) sobre a Roma antiga;

    uma discusso sobre revolues urbanas anteriores ao capitalismo tambm pode ser encontrada em Edward Soja (2008).

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    Estas perguntas s tem sentido porque o capitalismo ainda dominante

    como modo de organizar a sociedade e o espao; portanto, com certeza se pode afirmar que reflexes feitas h bastante tempo ainda podem se mostrar vlidas,

    ressalvadas as particularidades espao-temporais de pocas distintas. um pouco disto que trata este texto.

    Engels, a cidade e a questo da habitao

    Passados 165 anos da publicao original de A situao da classe trabalhadora na Inglaterra e 138 da publicao no jornal Volksstaat (Leipzig, Alemanha) de Para a questo da habitao, o que teria de atual e vlido na discusso sobre a cidades empreendida por Engels? H quase 40 anos, Henri Lefebvre publicou o que ele chamou de leitura temtica sobre a cidade e a problemtica urbana no quadro terico do materialismo histrico. A j clssica releitura lefebvriana sobre o marxismo e a

    cidade (Lefebvre, 1972) tinha como pano de fundo primordialmente a situao das cidades europias, o que significa que ainda vale a pena se perguntar sobre a validade/atualidade das reflexes do jovem Engels.

    Portanto, nada melhor que citar algumas passagens dos estudos clssicos para comear:

    O que verdadeiro para Londres tambm para Manchester, Birmingham e Leeds verdadeiro para todas as grandes cidades. Em todas as partes, indiferena brbara e grosseiro egosmo de um lado e, de outro, misria indescritvel; em todas as partes, a guerra social: a casa de cada um em estado de stio; por todos os lados,

    pilhagem recproca sob a proteo da lei; e tudo isso to despudorada e abertamente que ficamos assombrados diante das

    consequncias das nossas condies sociais, aqui apresentadas sem vu, e permanecemos espantados com o fato de este mundo enlouquecido ainda continuar funcionando. (Engels, 2008:68-9)

    quase desnecessrio dizer que se substituirmos as cidades inglesas citadas por equivalentes no Brasil, a descrio se encaixa quase perfeitamente.

    Inclusive na percepo das classes mdia e alta brasileiras sobre a questo urbana: a casa de cada um em estado de stio remete para a profuso de cercas eltricas e de arame farpado no entorno do terreno de casas e condomnios, a cidade de muros to bem descrita por Teresa Caldeira (2000). Antes de continuar, uma citao um pouco maior:

    Todas as grandes cidades tm um ou vrios 'bairros de m-fama' onde se concentra a classe operria. certo ser frequente a misria

    abrigar-se em vielas escondidas, embora prximas aos palcios dos ricos; mas em geral, -lhe designada uma rea parte, na qual,

    longe do olhar das classes mais afortunadas, deve safar-se, bem ou mal, sozinha. Na Inglaterra, esses 'bairros de m-fama' se estruturam mais ou menos da mesma forma que em todas as

    cidades: as piores casas na parte mais feia da cidade; quase sempre, uma longa fila de construo de tijolos, de um ou dois

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    andares, eventualmente com pores habitados e em geral dispostas

    de maneira irregular. Essas pequenas casas de trs ou quatro cmodos e cozinha chamam-se cottages e normalmente constituem em toda a Inglaterra, exceto em alguns bairros de Londres, a habitao da classe operria. Habitualmente, as ruas no so

    planas nem caladas, so sujas, tomadas por detritos vegetais e animais, sem esgotos ou canais de escoamento, cheias de charco estagnados e ftidos. A ventilao na rea precria, dada a

    estrutura irregular do bairro e, como nesses espaos restritos vivem muitas pessoas, fcil imaginar a qualidade do ar que se respira nessas zonas operrias, onde, ademais, quando faz bom

    tempo, as ruas servem aos varais que, estendidos de uma casa a outra, so usados para secar roupa. (Engels, 2008:70)

    Novamente, s substituir algumas palavras usadas por Engels por expresses mais comumente usadas em nosso Pas, e temos uma descrio

    atualizadssima da situao brasileira. Aqui, no temos cottages mas temos favelas, com os piores barracos nas piores partes das cidades, sem esgotos, etc.

    No preciso enumerar tudo de novo. Isto serve para lembrar que a questo da habitao continua irresolvida no Brasil, com um enorme dficit habitacional que tende a ser maior quanto

    maior for a aglomerao urbana que se estiver tratando. E como resolvida a questo da habitao? A descrio e discusso de Engels em Para a questo da habitao interessante porque serve para lembrar que as solues propostas pelas classes dirigentes do sculo XIX so muito parecidas com as solues brasileiras no s do sculo XX, mas inclusive deste incio do sculo XXI com programas do tipo minha casa, minha vida. Na polmica contra o Dr. Emil Sax, se tem a resposta: o senhor Sax tambm declara que a questo da habitao s pode ser resolver-se completamente por meio da transmisso da propriedade da habitao para os operrios (Engels, 1983:357). Ao invs de transformao da classe operria em classe possuidora, se pode perfeitamente substituir a sentena original por populao de baixa renda com acesso casa prpria. A terminologia no importa, nem mesmo se j no so mais os operrios fabris os alvos principais das

    polticas habitacionais. A propriedade privada de uma parcela de espao ainda , mais de um sculo depois, a frmula para a resoluo da questo do alojamento.

    Mesmo que juridicamente a posse de uma pequena casa e/ou terreno tanto em uma favela como em um loteamento irregular nas grandes cidades brasileiras no seja igual a propriedade privada, a frmula da auto-soluo (ou auto-

    construo) to comum em vrios pases da frica e Amrica Latina tem como resultado algo como o descrito por Engels (1983:359):

    O trao capitalista [Kapitalistentum] do nosso operrio tem, no entanto, ainda um outro lado. Suponhamos que numa dada zona

    industrial se tinha tornado regra cada operrio possuir a sua prpria casinha. Neste caso, a classe operria dessa regio tem habitao gratuita; os gastos com a habitao j no entram no valor da sua fora de trabalho, isto , todo o abaixamento duradouro dos preos das necessidades vitais do operrio,

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    equivale, porm, 'com base nas leis de bronze da doutrina da

    economia nacional', a uma reduo do valor a fora de trabalho e, por esse motivo, acaba por ter como consequncia uma queda

    correspondente no salrio. Ora, no caso brasileiro, trabalhadores domsticos e informais exatamente aqueles que recebem os mais baixos salrios ou obtm o mnimo de renda para subsistncia so rigorosamente os que vivem em habitaes precrias e, portanto, os gastos com habitao j no entram no valor da sua fora de trabalho. Uma das consequncias particulares deste fato no Brasil, que portanto no se verificou com as classes mdias europias e norte-americanas, foi a

    possibilidade da proliferao de empregadas domsticas nos lares dos extratos mdios. Pois bem: a grande questo para Engels que no se resolve o problema da

    falta de habitaes adequadas simplesmente vendendo/fornecendo casas para os mais pobres, visto que esta soluo no mexe com as causas que levaram ao

    aparecimento do problema. A desigualdade continua existindo. Portanto, o mximo que pode acontecer nas solues baseadas na venda e subsdio de habitaes mudar o problema de lugar (Engels, 1983:382). O Brasil est cheio de exemplos de favelas transferidas para a periferia via programas habitacionais, sem mencionar os casos de expulses pura e simples. Como todos sabem, at

    hoje isto no resolveu o problema; na maior parte das vezes criou outros. Novamente Engels (1983:382): enquanto o modo de produo capitalista existir, ser disparate pretender resolver isoladamente a questo da habitao ou

    qualquer outra questo social que diga respeito sorte dos operrios. Chega a ser engraado que a respeito da terra, se esquea na cidade as lies da

    discusso no campo: da mesma forma que no se faz reforma agrria efetiva simplesmente se distribuindo terras, no se faz reforma urbana simplesmente se distribuindo habitaes.

    O resultado na cidade, vou insistir mesmo com o risco da redundncia, no mximo alguns grupos populacionais mudarem de lugar. E mudanas de lugar dentro da cidade remetem a um fato aparentemente banal nos dias de hoje, mas que nem todos percebem a totalidade das consequncias, tanto prticas quanto tericas: o locus da riqueza e da pobreza est concentrado no mesmo espao. A proximidade territorial entre as classes maior que seu afastamento, por isso os conflitos e disputas por localizaes.

    Vou, portanto, continuar agora a partir de duas chaves bsicas para a compreenso do espao urbano atual: alm de entend-lo como disputa por localizaes, tambm com propriedades que concernem ao espao em geral, ou

    seja, como um conjunto indissocivel, solidrio e contraditrio de sistemas de objetos e sistemas de aes (Santos, 1996:51).

    Localizao e espao urbano

    O desenvolvimento tanto das tcnicas quanto do prprio capitalismo produziram neste incio do sculo XXI um fato indito: pela primeira vez na histria da humanidade h mais gente morando nas cidades do que no campo

    (Davis, 2006:13). Em consequncia, cada vez mais a aglomerao espacial e no a disperso dominam as relaes sociais: a concentrao de pessoas e objetos no

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    ambiente construdo que chamamos de cidade tem importncia sobre o sentido

    de localizao. O sentido de localizao importante porque ele anterior disputa por

    localizaes, faz parte da prpria constituio da geografia, mesmo que muitos no lembrem disso. A localizao o fundamento geogrfico da essncia do Ser. Ningum pode Ser sem estar localizado de alguma maneira, a forma mais

    imediata de existir, a forma mais imediata da relao homem-meio. Remete, portanto,

    posio do homem dentro de uma estrutura relacional, dentro de uma estrutura de coabitaes, na qual a distncia no tomada em termos mtrico-quantitativos, mas sim em termos da intensidade qualitativa da relao. O ente entre entes, inserido

    numa estrutura de coabitaes, presente, portanto, num contexto de uma distribuio, que coloca uma localizao especfica numa trama escalar, de extenso determinada. E assim o sentido da

    localizao se definir pela intensidade qualitativa da relao e pela extenso a que se v inserido o ente. Extenso e intensidade qualitativa numa relao variam em funo de aspectos que vo desde a afetividade (identidade, sentimento de pertencimento, etc.)

    at o carter tcnico estabelecido na relao, e neste ltimo caso sugere observar no limite at mesmo seu contedo tecnolgico. (Martins, 2007:48)

    O resultado que a localizao deve ser entendida sempre como uma

    relao social. Portanto, no uma questo que deveria apenas ser discutida na cidade, j que o onde?, uma das perguntas bsicas da geografia, acontece em qualquer lugar, o mesmo valendo - com o perdo da obviedade - com as relaes

    sociais. Mas afinal, o que torna a localizao na cidade to importante, visto que normalmente a que esta discusso acontece? Reforo novamente: uma

    questo de densidade, aglomerao e proximidade espacial. E tudo isto mais o fato de que o desenvolvimento do capitalismo modifica as relaes jurdicas e

    sociais da terra. Ao transform-la em mercadoria, o capitalismo tambm transforma e d novo contedo s relaes sociais de localizao.

    Dizer que o capitalismo transforma a terra em mercadoria ainda

    insuficiente para se entender a configurao do ambiente urbano, apesar de j ser um comeo. Em primeiro lugar, porque no se pode fazer simplesmente uma

    transposio da anlise da mercadoria para a terra (e menos ainda para o espao), pois esta no uma mercadoria como outra qualquer.

    Como j sabido, de uma forma geral a mercadoria produzida sob

    condies determinadas, a saber, em um territrio restrito e socialmente organizado (a fbrica) em que h uma separao ntida entre proprietrios de

    meios de produo e proprietrios da fora de trabalho. Esses ltimos, no processo de trabalho e numa quantidade x de tempo, produzem uma determinada quantidade de valor, s passvel de realizao por meio da troca. O que significa isto? Que os bens produzidos necessitam serem vendidos, para que o ciclo da mercadoria se feche e o capital possa se reproduzir e se valorizar (em outras palavras, o ciclo D-M-D). Pode-se por isso dizer que o capital cria seu

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    prprio mercado. Neste mercado, no qual os bens sero vendidos por um certo preo, esses preos estaro determinados pelas condies de produo. Ainda que a lei da oferta e da procura possa ser observada em algumas ocasies, ela est subordinada ao fato de que este mercado s pode existir se o preo contiver em si pelo menos o custo de produo mais um lucro. Dito de outra maneira:

    apesar das flutuaes conjunturais possveis, no final das contas o preo de produo que regula o preo de mercado (e o prprio mercado).

    E o que acontece com a terra?

    Contrariamente a los productos del capital que salen de la produccin como capital mercanca en vias de realizacin, los

    bienes races no implican ninguna necesidad social de ser vendidos. Por tanto, en este mercado tan especial no hay mercanca producida, ni precio regulador, ni ley de oferta autnoma. Se trata, entonces, de un mercado en el que la formacin de los precios se presenta a la inversa, en el que la ley

    de la demanda regula los precios de transaccin, mientras que stos regulam a su vez los precios de oferta. Todo el mundo sabe que el precio del suelo depende de lo que se hace - o se puede

    hacer - en l. (Topalov, 1984:09-10)

    E se pode fazer muitas coisas com a terra. Desde simplesmente deix-la para fins especulativos, alug-la para fins industriais e residenciais, vend-la com os mesmos fins ou mesmo construir algum tipo de benfeitoria. Isto vai resultar

    num mercado de solo urbano extremamente fragmentado e heterogneo. Na verdade, mercados, no um s. Topalov afirma que so as leis de demanda que dominam estes mercados, desde que se entenda que esta procura no remete s preferncias dos consumidores finais. Isto porque entre a compra do solo e sua utilizao, vai existir uma produo material de edificaes, sem falar nos agentes

    que intermedeiam a mudana de uso do solo. neste complexo processo social que se forma a demanda. El precio de este bien sin valor, el suelo, no puede ser entendido all donde se ofrece (mercado del suelo) sino all donde se forma (valorizacin del capital sobre el suelo). (1984:10)

    Ora, se o preo no pode ser determinado somente por alguma qualidade

    intrnseca ao solo, ento possvel entender a renda da terra como uma espcie de transferncia de parte do valor produzido pelo capital em uma atividade e num ponto do territrio qualquer para o proprietrio da terra. Segundo Topalov (1984:11) isto ocorre quando certas condies de valorizao so independentes do capital: por serem desigualmente estabelecidas segundo a localizao ou no

    serem reproduzveis por este capital considerado individualmente. Assim, a renda tambm pode ser entendida como um sobrelucro localizado, que se fixa onde se forma ao invs de entrar no movimento de nivelao dos lucros ou mesmo reentrar na cadeia de investimentos ditos produtivos. A localizao de uma parcela de terreno qualquer torna-se, portanto, importante para obteno de renda, visto que o proprietrio de terra detm virtualmente o monoplio de um bem que no pode ser reproduzido e que , entre outras coisas,

    condio para a existncia de atividades produtivas. Mas, e aqui entre talvez o elemento mais importante, nem a localizao nem a condio de suporte existem

    previamente: na verdade, so qualidades configuradas pela sociedade como um

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    todo. No so o solo, sua apropriao privada e sua escassez os fundamentos da renda da terra, e sim um conjunto de relaes sociais. Portanto, se pode concordar tanto com Villaa (1998) em sua afirmao de que a localizao um valor de uso

    produzido quanto avanar um pouco mais e entender a diferenciao social dos espaos como um resultado histrico porque social - e no um simples dado pr-configurado do territrio. Um exemplo simples mas verdadeiro lembrar que na cidade os terrenos mais valorizados so aqueles situados onde haja infra-estrutura (gua, luz, esgoto, etc.) pronta, acesso facilitado pela existncia de

    transporte coletivo, proximidade de servios, legislao que permita a verticalizao, em suma, condies que independem do terreno em si. E outro

    lembrar que as mltiplas caractersticas qualitativas de uma localizao se organizam como um valor de uso concreto somente em uma prtica, em um modo de vida particular. A posio de um objeto (de um ambiente edificado

    qualquer) no territrio tambm depende da posio e situao de classe. Por exemplo: a valorizao de morar perto do trabalho normalmente muito mais importante para um operrio do que para os dirigentes de uma empresa (Topalov,

    1984:217). O que torna a anlise da localizao urbana muito mais complexa. De qualquer maneira ainda se mantm verdadeira a contradio de que a

    propriedade do solo pode ser sim um obstculo externo livre inverso de capitais, mesmo que criada pelo prprio movimento que fez emergir o capital como o principal motor da sociedade. E se o capital que domina,

    La renta no determina por tanto la ganancia, forma inmediata y dominante del plusvalor, sino que se halla regulada por ste. Si la

    parte de la ganancia que corresponde al suelo afectase a la ganancia media, no habra inversion y, por tanto, tampoco renta

    del suelo. Este es el efecto de la estructura misma de las relaciones de produccin: el capital es quien controla efectivamente el proceso de produccin y tiende a eliminar la propriedad autnoma

    del suelo de cualquier funcin de organizacin de ese proceso. (Topalov, 1984:13)

    Tende, como diz o pargrafo acima, no quer dizer que necessariamente

    este fato ocorra sempre. De qualquer forma, neste processo, em que a lgica de

    desenvolvimento do capitalismo fora a reduo da propriedade da terra a um simples direito de participao na mais-valia social, que este tipo de propriedade

    deixa de ser o fundamento de uma classe social determinada. Assim sendo, qualquer classe ou frao de classe pode entrar neste mercado to especial; o que no eliminado (ou dissolvido) pelo capital que a terra continua representando

    interesses econmicos distintos e distinguveis (Roweis e Scott, 1981:140). Isto tudo traz consequncias importantes na configurao territorial urbana, e o resultado de todas estas contradies que se interpenetram para produzir no s

    a terra urbana, mas o prprio espao, pode ser descrito da seguinte forma: Roweis e Scott, analisando a sociedade norte-americana contempornea,

    distinguiram duas diferentes fases na produo e no consumo do solo urbano. Na primeira, o Estado que prov, seja diretamente ou atravs de subsdios, a infra-estrutura e facilidades pblicas de uma determinada rea. Isto ainda no

    significa que a configurao espacial final ou as vantagens locacionais do lugar j estejam determinadas. Isto s ocorre na segunda fase, quando uma srie de

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    transaes de mercados privadas vo estabelecer quais so os padres e a

    intensidade de uso da terra urbana. Enquanto a primeira fase envolve vrias formas de decises coletivas sobre

    a qualidade, localizao e at mesmo custo e viabilidade tcnica de investimentos que so pblicos, a segunda fase um processo puramente anrquico cujos resultados no foram inicialmente decididos e nem planejados, exatamente por

    causa da enorme variedade de usos possveis para a terra. Em princpio, a primeira fase pode ser entendida de acordo com critrios de custo-benefcio

    social. Mas a segunda fase no. Ela s pode ser entendida por critrios de custo-benefcio privados. Ou seja, enquanto os resultados da primeira fase so objetos de decises coletivas, os resultados da segunda fase no. Consequentemente,

    visto que a segunda fase um elemento decisivo, tanto como causa quanto como efeito na produo da terra urbana, o que se tem que o processo como um todo inevitavelmente anrquico. Logo, sob as relaes sociais e de propriedade

    atuais, a configurao espacial das diferentes vantagens locacionais (e por essa razo, dos usos e renda da terra) no so objetos de deciso coletiva e, alm

    disso, se torna muito difcil (se no impossvel) serem racionalmente planejadas (Roweis e Scott, 1981:142-143), como alis as vrias queixas no Brasil atual sobre Planos Diretores que ningum cumpre demonstram perfeitamente. Alm do mais, este processo no Brasil tende a ser mais complexo. Tanto o solo urbano pode ser produzido da mesma forma quanto pode ocorrer de um

    incorporador imobilirio comear a vender lotes antes do Estado chegar com a infra-estrutura, forando uma sobre-valorizao posterior. Isto sem falar nas invases de terrenos (tanto pblicos como privados) no s por sem-tetos como tambm por incorporadores clandestinos que vendem lotes de terrenos pblicos na periferia de muitas grandes cidades. , sem dvida, um tipo de produo do

    solo urbano que foge ao esquema e a imagem tradicional da existncia de um ordenamento capitalista totalmente racional.

    As diferenas de forma no importam aqui, pois o que precisa ser entendido

    que existe um componente anrquico, no s na criao de terra urbana como na produo do espao, com resultados no pretendidos e nem socialmente decididos (Gottdiener, 1993:107). Talvez o exemplo mais eloquente seja

    exatamente o da constituio de favelas: no h Administrao Pblica que no queira acabar com elas, no h grupo social dentro da cidade que goste da

    existncia deste tipo de aglomerao, mas elas existem. Avanando um pouco mais, se tem outro fator importante a considerar. A

    partir do momento em que a propriedade do solo se pulveriza e se incorpora ao

    capitalismo atravs de um mercado prprio (o mercado imobilirio), passa a existir a possibilidade de a terra no ser somente um obstculo ao capitalismo. O prprio capital pode agora fazer inverses extremamente lucrativas neste mercado, inclusive produzindo espao e, por meio deste, realizando mais-valia tanto na especulao como na construo, inclusive em momentos de baixa na produo industrial. Isto se torna possvel porque o solo (inclusive o solo edificado) possui uma potencialidade varivel de uso, como visto at aqui. Alis,

    varivel e cambivel; e como tambm j mencionado, produzido socialmente. Por esse motivo, Lefebvre (1976:108) chegou a dizer que estes bens, tradicionalmente considerados imveis, foram convertidos pelo capitalismo em bens mveis do espao. O fato de o capitalismo ter criado bens mveis do espao no significa,

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    como venho tentando demonstrar, que a configurao urbana seja um resultado

    puro e simples dos desejos do capital. Em primeiro lugar, porque o capital no pode ser personificado, ele tambm uma relao social. Em segundo lugar

    porque nem toda a forma que a cidade toma necessariamente a forma mais adequada para a reproduo do capital, vide as discusses dos economistas sobre as deseconomias de aglomerao como uma das responsveis por processos de transferncias de plantas industriais para fora dos grandes centros urbanos. Em terceiro lugar, a disputa por localizaes tambm uma luta

    pulverizada porque teoricamente qualquer um pode participar pela apropriao do excedente e da renda. Isto porque a posse de terra como localizao um meio de acumular riquezas sob as relaes capitalistas de

    produo, mesmo que apropriada por outras classes ou pessoas que no os capitalistas. A questo que, sendo disputa, h ganhadores e perdedores. Com efeito,

    todos podem participar do mercado de terras e do ambiente construdo, o que no elimina a questo de que esta participao desigual. Em uma sociedade de

    classes, qualquer que seja ela, alguns participam em melhores condies que outros. Esta desigualdade tem reflexos na forma com que a cidade vai se configurando: as melhores localizaes vo para as classes mais ricas, as piores

    para as classes mais pobres. O resultado mais genrico da disputa por localizaes a relao centro-periferia. Estou usando aqui genrico e aparncia para chamar ateno de que estas posies no so nem estticas nem absolutas. A centralidade, sendo uma localizao, criada pelas relaes sociais, podendo portanto, mudar de lugar, ser ampliada ou reduzida em seu

    alcance, etc. O mesmo pode ser dito a respeito da periferia: quantas reas nas cidades brasileiras que h 30 ou 40 anos eram consideradas longe e perifricas hoje no se transformaram em reas ditas nobres e valorizadas pelo processo de crescimento econmico e populacional? O que nunca pode ser esquecido : o segredo para o entendimento das localizaes e das relaes centro-periferia a

    palavra relao. ela que permite fugir da noo de espao absoluto e da concepo de espao como simples substrato das aes humanas. Assim, a outra questo mencionada no incio desta seo agora entra em

    cena: as localizaes no so unicamente consequncia de relaes sociais, mas tambm so determinadas pela quantidade e qualidade de objetos existentes em

    um determinado lugar. O que significa que a localizao tambm um ambiente construdo. O centro s centro porque a quantidade de infraestrutura fixada no territrio torna a localizao atraente: o lugar onde existe distribuio abundante de energia, gua, iluminao, calamento, supermercados, hospitais, escolas, etc, etc. E isto tudo no precisa estar necessariamente no centro

    histrico da cidade, nem no centro geogrfico de qualquer stio urbano. Na verdade, a centralidade enquanto localizao constantemente muda de lugar em cidades com forte dinamismo econmico e populacional. Esta dinmica

    frequentemente tem como um de seus resultados em cidades maiores e relativamente antigas processos de esvaziamento e degradao do centro histrico. Como uma coisa est ligada outra, outro resultado aparece como consequncia do processo anterior: o esvaziamento significa desvalorizao e subutilizao de uma quantidade enorme de capital fixado no solo, o que mostra

    mais uma vez como os resultados das disputas por localizaes no necessariamente (nem imediatamente) so os mais favorveis para o processo de

  • 10

    reproduo do capital.

    Ento, se o resultado destes processos contraditrios e no intencionalmente planejados a configurao urbana extremamente fragmentada

    que se tem nos dias de hoje, como ficam as questes to debatidas de excluso social e segregao espacial?

    Excluso e segregao: notas para um debate

    o 'fetichismo do espao' o modo de pensar particular dos gegrafos. As relaes entre os grupos ou classes sociais so apresentados como relaes entre reas, obscurecendo (como no

    chauvinismo) as divises sociais no interior das reas. () A desigualdade social no substituda pela 'desigualdade espacial',

    porque o ltimo termo destitudo de significado, independente de contedo social no se pode escolher entre 'espacial' e 'social', preciso ter ambos. (Anderson, 1977:46)

    Esta seo comea com uma citao de um texto que se tornou um clssico de James Anderson como uma provocao. Excluso e segregao so conceitos

    que tem se destacado na Geografia e nos estudos urbanos h um certo tempo. A disseminao destes conceitos foi to forte que ultrapassou a escala urbana; hoje

    comum referncias frica, por exemplo, como um continente excludo da globalizao.

    A grande questo : esses conceitos, importados principalmente da

    sociologia, ajudam a clarificar e explicar os fenmenos scio-espaciais ou a geografia deveria repensar o uso que faz deles? Na verdade, a questo ultrapassa

    a Geografia: os conceitos de excluso e segregao so teis para o entendimento da realidade ou acabam apenas descrevendo a aparncia de certos fenmenos e no sua essncia? At que ponto a utilizao destes termos no incorre no fetichismo espacial que Anderson alertava h mais de 30 anos?

    Segregao e excluso comearam a ganhar o mundo a partir dos estudos

    sobre as cidades desenvolvidos pelos socilogos da pioneira Escola de Chicago entre as dcadas de 1920 e 1940. Tambm conhecida como a abordagem da Ecologia Urbana, estas pesquisas entendiam que a cidade no cresce por acaso,

    mas obedecendo padres que seriam como respostas a aspectos vantajosos do ambiente. Alm de enxergar a cidade de forma semelhante a um organismo vivo,

    esta teoria diz que a dinmica interna, o como os indivduos se distribuem no espao urbano, segue uma lgica de processos de competio, invaso e sucesso de territrios. Assim, padres de localizao e deslocamento nas cidades refletem

    a maneira pela qual os moradores lutam por sua sobrevivncia, tendo como resultado a formao de reas com caractersticas sociais distintas e contrastantes (que seria a origem dos guetos raciais nas metrpoles norte-

    americanas)2. Mais recentemente, e ainda que crtica Escola de Chicago, a renovao da

    sociologia urbana francesa na dcada de 70 praticamente incorpora estes conceitos como explicadores da realidade. Manuel Castells, por exemplo, entendia

    2 Existem centenas de artigos e livros descrevendo e discutindo as proposies da Escola de

    Chicago. Sugiro como introdues simples ao assunto: Giddens, 2005: pgs. 457-60; Gregory e

    Johnston, 2009: pgs. 78-80; Vasconcelos, 1999: pgs. 146-59.

  • 11

    o urbano como uma unidade espacial da reproduo da fora de trabalho, o que

    significa dizer que o entendimento das questes urbanas est ligado aos problemas do consumo coletivo. Como ele mesmo diz, a segregao social do espao portanto expresso especfica dos processos que visam a reproduo simples da fora de trabalho, mas estes processos esto sempre inseparavelmente articulados com o conjunto de instncias da estrutura social (Castells, 1983:228).

    O reflexo nos dias de hoje evidente: quase impossvel atualmente

    (inclusive na geografia latino-americana) encontrar um texto ou uma pesquisa sobre as cidades que no faam referncia excluso, segregao ou ambos. Em parte, pode-se dizer que a aceitao dos termos ocorreu facilmente porque quase

    ningum a favor da excluso ou segregao, da mesma forma que quase ningum em s conscincia diria que a favor da discriminao de gnero ou raa (me abstenho de discutir aqui o fato de que muitos que dizem no

    discriminar so na prtica preconceituosos). A partir da, textos e mais textos denunciando a existncia destes fenmenos em metrpoles, cidades mdias, em

    cidades do centro do sistema capitalista ou da periferia ganharam volume cada vez maior. Para se ter uma idia, uma pesquisa no Google sobre spatial segregation tem como resultado aproximadamente 370.000 pginas, o que d uma medida da popularizao da discusso.

    Partindo ento da premissa que todos so contra a segregao e a excluso,

    infere-se que todos querem incluir os excludos e agregar os segregados. A primeira pergunta, portanto, : incluir e agregar aonde? De que forma? A

    pergunta derivada desta : afinal, segregados e excludos do qu estamos

    falando? Para clarificar, nada melhor que comear com definies de dicionrio. O

    Dicionrio Online da Lngua Portuguesa Priberam explica da seguinte forma: lembra que segregao o ato ou efeito de segregar; este verbo, por sua vez, significa 1) separar de um todo; 2) pr de parte, expelir, deitar; 3) Apartar,

    separar; 4) sair, desmembrar-se. Por sua vez, excluir deriva do latim excludo,-ere: no deixar entrar, expulsar; tendo como definies 1) pr fora, pr de parte, no

    contar, no incluir; 2) Tirar (de lista); 3) no admitir; 4) excetuar; 5) privar da posse de alguma coisa. Para complementar, o conceituado Dicionrio de Geografia Humana comea o verbete definindo segregao desta maneira: Diz-se que o fenmeno da segregao ocorre quando dois ou mais grupos ocupam diferentes espaos dentro da mesma cidade, regio ou mesmo Estado3 (Gregory e Johnston, 2009:673).

    O ponto que deve ser destacado aqui o seguinte: porque se fala em

    diferentes espaos quando se discute segregao/excluso? Na verdade, aceitar a existncia de diferentes espaos significa no ter um conceito sobre espao. E no ter um conceito sobre espao faz com que a teoria repita o padro aparente

    da realidade, pulverizando e fragmentando o objeto de anlise. O leitor destas linhas deve lembrar: este texto comeou com uma citao de

    David Harvey sobre a cidade. A complexidade da paisagem, a juno de mltiplas liberdades e oportunidades, a cidade como arena de ordem/desordem na verdade deveria revelar o fato de que tudo isto conforma um espao. Como lembra Doreen

    Massey, o espao o produto de inter-relaes e

    3 No original: The phenomenon of segregation is said to occur when two or more groups occupy

    different spaces within the same CITY, REGION or even STATE.

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    a esfera da possibilidade da existncia da multiplicidade, no sentido da pluralidade contempornea, como a esfera na qual

    distintas trajetrias coexistem; como a esfera, portanto, da coexistncia da heterogeneidade. Sem espao, no h multiplicidade; sem multiplicidade, no h espao. Se espao ,

    sem dvida, o produto de inter-relaes, ento deve estar baseado na existncia da pluralidade. Multiplicidade e espao so co-

    constitutivos. (Massey, 2008:29) O resultado, para a autora, que o espao est sempre em construo.

    Portanto a questo aqui reconhecer que a multiplicidade muito mais carregada de significados e capaz de explicar a realidade do que as dicotomias de excluso e segregao que so muito mais comumente usadas pelos analistas

    contemporneos da cidade. E que melhor exemplo do que discutir a posio dos mais pobres nas

    sociedades do dito terceiro mundo? Os favelados esto nos extratos mais pobres da populao latino-americana, aqueles que habitam a poro mais desvalorizada do espao urbano. Seriam um exemplo claro da existncia dos fenmenos de

    excluso e segregao. Mas, o que aconteceria se comessemos a analisar mais detidamente as relaes sociais e espaciais estabelecidas pelas diferentes classes

    e camadas moradoras das cidades? De volta aos favelados: eles esto excludos da cidadania? Da sociedade? Pois bem, para tomar o caso brasileiro, preciso lembrar que salvo analfabetos, todos podem votar e ser votados, todos tem acesso

    a um sistema jurdico, escolar e de sade, a quase totalidade possui acesso luz eltrica e gua e para completar, hoje existem praticamente um telefone celular por habitante no Brasil. Evidentemente, a qualidade destes servios pode e deve

    ser discutida e denunciada, mas a questo que eles no so cidados excludos, a menos que excluso seja concebida em termos de qualidade de acesso a certos bens e servios.

    Alis, Robert Castel, analisando os tumultos urbanos recentes na Frana,

    lembra, semelhana do que estou fazendo aqui, que assim como a periferia no um 'gueto', assim tambm o jovem da periferia no um 'excludo'. (Castel, 2008:36). Isto porque a grande maioria deles se beneficia das duas prerrogativas

    essenciais da Repblica Francesa, a cidadania poltica e a cidadania social. Portanto, no a excluso que explica tumultos e revoltas da periferia. Esta a explicao fcil mas pouco real.

    Seria ento excluso no acesso a terra? Assentamentos informais (ilegais) representam na verdade acesso terra de pior localizao no espao urbano (e

    portanto mais barata e acessvel aos mais pobres). Novamente aqui, o conceito de excluso fica difuso, j que ao contrrio do que parece, os favelados esto no espao urbano, ainda que nas piores e mais problemticas localizaes. exatamente para estar na cidade (portanto, includo nela) que os mais pobres resolvem seu problema de habitao atravs de assentamentos precrios. A favela

    no uma excluso da cidade, no mximo pode ser pensada como um lugar de imposies da no-escolha mercantil e, portanto, a uma lgica externa ao mercado (ou de excluso do mercado) (Abramo, 2007:61). O que muitos esquecem que favelas, na verdade, complicam a teoria original da segregao. Esta teoria foi pensada (como j descrito algumas pginas atrs) numa situao

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    em que tanto pobres como ricos acessam o mercado e se distribuem no territrio

    de acordo com sua renda, homogeneizando pores (bairros) do espao urbano. Ora, a construo de assentamentos pela via da no-escolha mercantil descaracteriza completamente a pretensa lgica da teoria neoclssica de localizao residencial (ver uma discusso mais completa no livro de Pedro Abramo, 2007). O que qualquer comparao de cidades norte-americanas com

    latino-americanas mostra por exemplo, que a proximidade espacial entre pobres e ricos muito maior aqui do que na Amrica do Norte. Ser preciso lembra das

    favelas subindo morros ao lado de bairros de classe mdia do Rio de Janeiro e outras cidade latino-americanas?

    Poderia-se falar ento de segregao espacial dos favelados? Segregar,

    como ensinam os dicionrios, separar, isolar, afastar. Os favelados no se deslocam para fora das favelas? No trabalham - por exemplo como empregados domsticos e de baixa qualificao no setor tercirio em bairros de classe mdia e distritos de escritrios? No vo ao centro histrico das cidades comprar bens de consumo a prestaes de perder de vista e juros altos em magazines

    populares? No existe isolamento absoluto (nem mesmo nos guetos raciais norte-americanos, origem das discusses sobre segregao), o que torna, novamente, complicado discutir a segregao.

    Pode-se tambm partir do espectro social oposto, como muitos tem feito hoje em dia, na hora de discutir segregao. A criao de condomnios fechados para as classes mdias e alta na grande maioria de cidades grandes e mdias brasileiras seria um sinal evidente de segregao. Existem duas coisas aqui importantes para o entendimento deste fenmeno. A primeira, diz respeito

    prpria incoerncia da novidade dos condomnios fechados. Isto talvez se deva ao fato de que gegrafos e urbanistas nem sempre so versados em termos jurdicos (o que bastante compreensvel; eu mesmo estou longe de s-lo). Ora,

    todo e qualquer condomnio fechado. No existe condomnio aberto. O leitor destas linhas que porventura mora em um edifcio deve lembrar: quase todos os

    edifcios multifamiliares no Brasil so administrados no formato de Condomnios. Ns pagamos taxas de condomnio ao morar em edifcio, o que significa, entre outras coisas, que s os pagantes (moradores) tem acesso e direito de usufruir

    das reas comuns do mesmo. O que tambm significa, para fins prticos, que todo no-morador excludo do condomnio! Continuando o raciocnio, deve-se

    pensar: quando o morador entra em sua unidade habitacional (o apartamento) e fecha a porta, o que ele est fazendo? Excluindo todos os no-moradores! Pode-se raciocinar da mesma maneira com a questo da segregao: quando entramos em

    nosso condomnio, estaramos segregando todos os outros fora do edifcio; quando entramos em casa, segregamos nossa famlia num espao particular. Espero que tenha ficado claro: o que estou tentando demonstrar a fragilidade

    dos conceitos de excluso e segregao como portadores de novas formas sociais e urbanas e explicadores de fenmenos contemporneos.

    A segunda coisa : ao contrrio do que se pensa, a proliferao de condomnios fechados tem tido como efeito provavelmente no planejado, a proximidade de classes sociais que mantinham distncias fsicas maiores

    anteriormente. Isto porque at pouco tempo atrs em quase toda a Amrica Latina (no s no Brasil) os ricos moravam em reas centrais e os pobres nas periferias. Pois bem, os novos bairros para as classes mais altas esto sendo

    construdos nas periferias e em grande medida em reas onde antes s havia

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    pobres. Num texto muito interessante, Sabatini e Brain (2008) discutem a partir da experincia chilena estas questes, inclusive cunhando o termo gentrificao4 da periferia:

    En nuestro medio latinoamericano la gentrificacion afecta a la periferia popular, pero podra tratarse de una 'gentrificacin sin

    expulsin', esto es, de uma invasin de los ms ricos que no da lugar necesariamente a la expulsin de los residentes de menores

    ingresos. Por tratarse de la periferia, los 'gentrificadores' encuentran sitios eriazos; y por predominar entre los residentes de condicin popular formas de tenencia del suelo distintas que el

    arrendamiento (ya sea la informalidad o la propiedad privada de la vivienda social) la expulsin es ms difcil. El resultado espontneo es la reduccin de la distancia entre los grupos sociales que

    ocupan los extremos de la escala social, es decir, uma reduccin de la segregacin residencial. (Sabatini e Brain, 2008:14)

    A partir disto, pode-se pensar em vrios exemplos semelhantes espalhados

    pelas cidades brasileiras. Para no ser acusado de falta de exemplos concretos,

    posso citar condomnios de casas para classe mdia que comeam a proliferar pelos bairros agronomia/lomba do pinheiro em Porto Alegre, tradicionalmente

    populares e com baixos indicadores sociais que nos ltimos anos tm visto multiplicar os condomnios fechados em reas vazias, mas sem expulsar os mais pobres.

    Mas, se for admitido que mesmo assim importante discutir a cidade pelo prisma de excluso e segregao, qual a proposta? Incluir os excludos na sociedade de consumo (na verdade, eles j esto includos, mesmo que na

    condio de exrcito industrial de reserva)? Agregar bairros utpicos onde as diferentes classes sociais viveriam misturadas e em harmonia? O que talvez

    muitos no percebem que combater a segregao e excluso na maioria das vezes tem uma orientao profundamente conservadora, como alis j alertava Jos de Souza Martins (2008:35). Exatamente porque incluir significa entrar na

    sociedade como consumidor. Incluir no questionar e muito menos combater o tipo de organizao social que criou as desigualdades; incluir uma luta para a

    aceitao das desigualdades. Uma questo simples que deve ser retomada : a sociedade capitalista

    produz desigualdades, tanto sociais como espaciais. Retomar a discusso sobre a

    produo espacial das desigualdades talvez seja a chave para construirmos conceitos melhores para o entendimento do espao urbano capitalista.

    Por onde comear? Este texto comeou relembrando as clssicas

    discusses de Engels, voltemos pois ao marxismo: toda a propriedade uma renda de monoplio (por sinal, a discusso de renda da terra anterior ao

    marxismo), portanto, basicamente uma forma de segregao. Como a propriedade privada do solo pulverizada em milhes de proprietrios, no tem sentido discutir segregao a partir disso, pois teramos milhes de potenciais

    segregadores. Mas o que no pode ser esquecido que a apropriao privada da

    4 Lembrando que gentrificao um neologismo derivado da palavra inglesa gentrification,

    significando processos induzidos de renovao de reas centrais das cidades, normalmente

    substituindo moradores e frequentadores mais pobres por outros de classe mdia/alta.

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    terra contraditria: a posse da terra um meio de acumular riquezas sob as

    relaes capitalistas de produo, podendo ser feito inclusive por no-capitalistas. Qualquer cidade possui alguns personagens oriundos de extratos

    mdios que enriqueceram por saber lidar com este mercado to especial. O que o mercado imobilirio revela uma luta de classes pela apropriao da distribuio da riqueza. E como nota Gottdiener (1993:110), exatamente a atuao de fraes especficas de classe no circuito secundrio, o papel do Estado em todos os nveis na ajuda atividade do setor imobilirio e as consequncias

    contraditrias dessas intervenes que explicam a forma espacial. Excluso e segregao no so consequncias da maldade do capitalismo

    e/ou dos capitalistas; na verdade, a eventual presena destes fenmenos tem

    mais relao com a incapacidade do capital de resolver todas suas contradies, com a fraqueza em combater formas de ganho baseadas em renda e no em produo de mercadorias. O fato de o capital tambm se aproveitar da produo

    de espao como maneira de igualmente se apropriar de parte da renda como brilhantemente demonstrou Henri Lefebvre em vrios de seus livros apenas

    acrescenta mais contradio na produo de formas espaciais urbanas. E estas contradies no eliminam o aspecto de que o mpeto geral de toda lgica capitalista do poder no que os territrios se mantenham afastados do

    desenvolvimento capitalista, mas que sejam continuamente abertos (Harvey, 2004:117). Ainda que as palavras de Harvey originalmente se refiram

    acumulao de capital em geral, podem perfeitamente ser transcritas para a questo urbana. Como tem sido visto recentemente no Brasil, incluir os mais pobres na sociedade de consumo (via programas sociais como o bolsa-famlia, por

    exemplo) muito mais lucrativo e sustentvel para os processos de acumulao do que exclu-los e segreg-los. Alis, um bom tema para estudos talvez seja a reao de alguns setores das classes mdias-altas contra a incluso dos mais

    pobres. Com os pobres ganhando mais aumento de renda do que os mais ricos, comprando carros por exemplo e portanto aumentando os congestionamentos, as

    manifestaes de preconceito aparecem, mesmo que disfaradas. E isto, como j afirmado aqui, pura expresso da luta de classe pela apropriao de riquezas, j que uma parcela destas, tradicionalmente cativa das classes altas, agora parcial e

    timidamente se dirige via Estado para outros extratos. Por consequncia, ainda sumamente importante para a compreenso do

    espao urbano o entendimento do papel do Estado, seja via programas sociais, investimentos em infraestruturas, financiamentos habitacionais, etc.

    Em resumo, entender a cidade como justaposio da riqueza e da pobreza

    no mesmo espao, como proximidade fsica contraditria de classes e interesses diferentes muito mais rico para uma anlise e tentativa de compreenso deste fascinante fenmeno que a urbe contempornea do que partir dos conceitos de

    excluso e segregao.

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